Johnny Weissmuller: lenda na natação e ator popular como Tarzan.
Na década de 20, a natação ainda vivia sua época primitiva. Não existiam o bloco de partida nem as regras que determinavam como deveria ser feita a virada na água. O primeiro impulso era feito com o nadador dentro da piscina, na parede. Em 1922, sob essas normas e limitações, um homem, pela primeira vez na história do esporte, conseguiu nadar os 100m em menos de 1min. Este mesmo atleta, mais tarde, daria aos Estados Unidos cinco medalhas de ouro em duas Olimpíadas.
Em 1932, a MGM lançou o filme "Tarzã, o filho das selvas". O ator em questão ajudou muito a popularizar o personagem criado em 1912 pelo escritor Edgar Rice Burroughs. Virou sucesso imediato, com grande apelo entre as crianças.
Por trás do nadador recordista e do intérprete de um dos maiores personagens da história do cinema, se escondia o mesmo rosto: Johnny Weissmuller.
Há 40 anos, no dia 20 de janeiro de 1984, o homem que ajudou a revolucionar o esporte e a criar um mito das telonas morria em Acapulco, no México. Deixava, então, o cinema órfão daquele que é considerado o melhor Tarzã da história e a natação sem sua primeira grande lenda.
Mais do que isso, só o feito de talvez ter sido o único esportista de grande nome a vingar como ator. Algo que quase não ocorreu - e quase não ocorreu porque Weissmuller precisou mentir para disputar os Jogos Olímpicos de 1924 pela pátria norte-americana.
Nascido em 4 de junho de 1904 em Freidorf - hoje um distrito de Timisoara, na Romênia, mas na época uma cidade do império Austro-Húngaro -, Weissmuller chegou aos EUA com sete meses. Em 1924, declarou Windbar, na Pensilvânia, como local de nascimento. Em Paris, foi campeão olímpico dos 100m livre, 400m livre e do 4x200m livre. Quatro anos depois, em Amsterdã, seria campeão nos 100m e no 4x200m, além de bronze no polo aquático. Seu recorde de 57s.6 na natação perdurou dez anos, de 1924 a 1934.
Em 1932, vestia pela primeira vez uma tanga e dava seus saltos em cipós feitos de corda nos estúdios da MGM. Agradou, e muito. Tinha boa estatura (1,90m), era forte e tinha a imagem viril desejada pelos produtores. Foram doze filmes no total encarnando Tarzã, que o tornaram conhecido em Hollywood.
Das duas carreiras, alguns mitos surgiram. Da natação, a história de que nunca tinha sido derrotado - uma lenda, apesar de ter vencido, segundo consta, mais de 50 campeonatos nacionais e ter estabelecido mais de 60 recordes mundiais. A outra, que só tinha começado na natação porque era um menino doente.
"Espalhamos essa história para inspirar as crianças. Eu era um menino muito magro, claro, mas não tinha nenhum problema sério de saúde", admitiria, em 1970, à revista Sports Illustrated.
Da carreira no cinema, o mito era que tinha ficado rico. Não ficou, e ganhou certa instabilidade na vida pessoal. Foi casado cinco vezes e teve três filhos. Depois de Tarzã, passou oito anos interpretando outro personagem fictício, "Jungle Jim". E foi só.
Os últimos anos de vida foram difíceis. Chegou a sofrer uma série de derrames e de ataques cardíacos. Em 1979, foi internado em Los Angeles, onde especialistas diagnosticaram um "desequilíbrio mental progressivo e incurável", segundo obituário do ator escrito pela Folha de S. Paulo na década de 80. Acreditava, diz o registro, que ainda era o Tarzã e gritava, com voz falha, a plenos pulmões o som que tinha inventado para o personagem.
No dia 20 de janeiro de 1984, morreu em decorrência de um edema pulmonar. Não conseguia mais pular e se movimentar como o personagem, nem nadar como um campeão olímpico. Estava em cadeira de rodas e sob tratamento 24h por dia, com acompanhamento de uma enfermeira.
Curiosamente, sabia bem no que era melhor e também demonstrou, após a morte, o que parecia mais importante para ele. Sobre atuar, disse também à Sports Illustrated: "O público perdoa as minhas atuações porque sabem que sou um atleta. Sabem que eu não sou um criador de imagens."
No seu enterro, em vez de honras ao nadador que elevou a natação norte-americana a um outro patamar, um som se destacou. Enquanto o caixão de Peter Johann Weissmuller baixava, o grito de Tarzã ecoou três vezes de um gravador.