Casal ligou para os pais pouco antes de morrer em incêndio em Londres
Casal italiano falou com os pais ao telefone durante o incêndio. Estavam no Reino Unido desde março
Marco Gottardi e Gloria Trevisan, ambos com 27 anos e arquitetos, estavam desaparecidos desde o incêndio na Grenfell Tower. Moravam no 23.º andar do prédio londrino com 24 pisos e tinham-se mudado para Londres em março, porque Gloria não conseguia, em Itália, um emprego que pagasse mais de 300 euros. Em Inglaterra recebia mais de 2 mil.
Por estar num andar alto, receiava-se que o casal não tenha conseguido sair. Marco e Gloria foram entretanto dados como desaparecidos. Segundo a imprensa italiana, Marco estava ao telefone com o pai, a contar-lhe como o fumo estava a subir, quando a linha foi subitamente cortada.
Gloria Trevisan também se apressou a telefonar aos pais, que começaram a gravar as chamadas da filha quando se aperceberam da gravidade da situação.
"São chamadas terríveis, cheias de agonia", disse Maria Cristina Sandri, a advogada da família Trevisan, que diz ter chorado quando ouviu as gravações.
De acordo com os meios de comunicação italianos, Gloria ligou aos pais para avisar que havia um incêndio no terceiro piso do prédio, mas todos pensavam que os bombeiros conseguiriam controlar o fogo. O avançar rápido das chamas demonstrou o contrário e os telefonemas da jovem para a família ficaram mais desesperados.
Com o passar das horas, os pais de Gloria pediram para falar com Marco, que tentou acalmar todos os envolvidos. "Os bombeiros estão aqui. Está tudo bem", terá afirmado ao telefone.
Algum tempo mais tarde, e já com os pais de Glória a verem tudo na televisão, a jovem italiana disse que não conseguia sair do apartamento. "Está tudo bloqueado", disse.
Na última chamada entre Gloria e os pais, o tom já foi de despedida. "Desculpem por nunca vos abraçar outra vez. Tinha a vida toda à minha frente. Não é justo. Não quero morrer. Eu queria ajudar-vos, agradecer por tudo o que fizeram por mim. Vou para o céu, ajudo-vos de lá", disse a italiana de acordo com o La Repubblica.
Giannino Gottardi, pai de Marco, disse à imprensa italiana que apenas lhe resta "esperar por um milagre". "No primeiro telefonema eles disseram-nos para ficarmos calmos, que estava tudo controlado. Mas na outra chamada, que eu não consigo tirar da cabeça, ele disse-me que havia fumo, muito fumo a subir", afirmou.
Uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália confirmou, na passada quinta-feira, que "dois cidadãos italianos estavam desaparecidos".
O número de vítimas mortais no incêndio na Grenfell Tower, em Londres, subiu entretanto para 30, revelou a polícia esta sexta-feira. O fogo, que começou na madrugada de quarta-feira, só agora foi extinto.
‘Queria te agradecer por tudo’, disse italiana ao pai enquanto via chamas subirem
Quando perceberam que as chamas haviam queimado qualquer possibilidade de fugir com vida do incêndio do Grenfell Tower, em Londres, Gloria Trevisan e Marco Gottardi tiveram uma única reação: telefonar para os pais.
“Sinto muito nunca mais poder te abraçar”, teria dito Gloria, como contou seu pai Loris ao jornal italiano “La Repubblica”.
O casal italiano estava no 23º andar do prédio, quando viram as chamas que mataram 30 pessoas e feriram dezenas se alastrar. Com poucas chances de escapar, ambos arquitetos e com 27 anos, fizeram ligações desesperadas.
“Eu tinha minha vida inteira pela frente. Não é justo. Eu não quero morrer. Eu queria te ajudar, te agradecer por tudo que fez por mim. Eu estou indo para o céu, vou te ajudar de lá” — essas teriam sido as últimas palavras de Gloria, como contou seu pai.
A filha teria telefonado na casa deles em Pádua, na Itália, mais cedo para dizer que havia um incêndio no quarto andar. Ela teria assegurado a ele que os bombeiros estavam conseguindo extinguir o fogo. Depois disso vieram os telefonemas derradeiros.
Quando eles viram o fogo pela televisão, o pai de Gloria disse ter ouvido da filha que “eles queriam descer, mas viam chamas subindo as escadas e a fumaça era cada vez mais intensa”.
A linha telefônica caiu por volta de três horas da manhã. Fizeram centenas de ligações à filha, mas não conseguiam mais contato.
Marco Gottardi também telefonou para sua família duas vezes. Primeiro tentando tranquilizar, e depois perdendo as esperanças. O jovem teria dito que o apartamento estava “coberto de fumaça” e a situação era grave, como contou seu pai, Giannino Gottardi, ao jornal “Il Mattino di Padova”.
— Na primeira chamada, Marco nos disse para não nos preocuparmos, que tudo estava sob controle. Ele estava tentando minimizar o que estava acontecendo, provavelmente para não nos preocupar — disse.
Mas na segunda ligação, e não consigo tirar isso da minha cabeça, ele disse a fumaça estava tomando tudo e tinha virado uma emergência. Nós ficamos no telefone até o último momento.