A ditadura comia solta, mas o que se ouvia no rádio era Wilson Simonal cantando que morava "num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza". Em 1969, viveu-se um período de contradições, de transição, de mudanças. Nos cinemas, Glauber Rocha lançou um de seus clássicos, "O dragão da maldade contra o santo guerreiro". Mas 1969 foi, principalmente, o ano de "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade. Até então, acreditava-se que cinema brasileiro era uma ideia na cabeça, uma câmera na mão e uma plateia vazia. "Macunaíma", que trazia o humor de Grande Otelo, o talento de Paulo José e o inacreditável carisma de Dina Sfat, reconciliou o Cinema Novo com o grande público. Só que, no mesmo ano, foi criada a Empresa Brasileira de Filme, a mítica Embrafilme, o instrumento que, justamente em nome da conquista do mercado, anunciava o fim do Cinema Novo. Era tempo de "Macunaíma" e "O dragão da maldade...", mas começavam a se criar os mecanismos que possibilitariam a chegada, na década seguinte, dos megassucessos de bilheteria "Dona Flor e seus dois maridos" e "Xica da Silva".